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Canção de ninar

Padrão

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em memória de Cláudia da Silva Ferreira
assassinada pela Polícia Militar do Rio de Janeiro

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I

a tarde passara com suas chuvas e calores
(ainda restavam programas na TV)

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a lua estava alta no céu
naquela noite de domingo

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grande e brilhante
satélite cravejado de crateras

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II

os olhares e a torcicolo
as máquinas fotográficas
as orações e os gemidos de gozo
todos voltados para o céu

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só na segunda-feira
os olhares se voltaram ao chão

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III

os olhos assistiram à manchete estampada
na capa  de um periódico duvidoso

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o crânio cravejado
o corpo arrastado no asfalto
as justificativas das autoridades
o desespero dos quatro filhos
(e dos quatro sobrinhos)

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― gritos choro e ranger de dentes
….aos quatro ventos
….num vale de lágrimas

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IV

os seus olhos não contemplaram
a lua clara na noite escura

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nem pode cantar qualquer canção de ninar
para as crianças sob seu teto

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V

enquanto os dedos ferem o teclado
sugerindo versos (talvez) inúteis
o chão ainda carrega uma mancha indigesta

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Amnésia

Padrão

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De alguma forma
esquecemos que nosso povo serviu a seus algozes
como quem oferece uma flor de presente.

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Os que lançaram pedras aos golias de cá
foram pisados como frágeis margaridas
que se levantavam em sinal de revolta.

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Nossas ruas avenidas monumentos
ostentam nomes impolutos
de traidores genocidas e inertes.

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Não encontramos familiaridade em
Zumbi Olga João Luíza Cândido Aurora.

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Carros-pipa (com sua água de reuso)
lavam o sangue as bandeiras os gritos
– incrustados no asfalto na terra nas pedras.

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Já não há mortos
ninguém foi desaparecido sem deixar rastro.

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Não há corpos escondidos sob a lama
entre cinzas entre arquivos
ou no fundo do mar.

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Lucifilia

Padrão

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dedicado a todas as vítimas
da ação da PM paulista
na região da estação da Luz
entre dezembro de 2011
e janeiro de 2012

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I

Como homens lobotomizados
vagam na escuridão
envoltos em mantos esfarrapados
Sedentos.

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Fustigados pela vida
mancam das pernas e do espírito
com a mão estendida
(pedindo clemência ou níquel)
ou armados de cacos de vidro
– camuflados na cinza paisagem da metrópole.

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Atravessaram longas distâncias
em busca da estrela brilhante
que anunciaria a redenção
e a prosperidade
com seus vapores de alfazema e notas amadeiradas…

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Fracassaram.

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Noctâmbulos recorrem
a qualquer brilho fugaz
ou pedra preciosa
na desesperada (e inútil)
tentativa de inalar tais anseios.

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Tal astro de brilho indecifrável
é uma lanterna no fim de um túnel
Estreitíssimo.

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.Hoje fedem.

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II

Nem todos os zumbis
vagam na noite.

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Há aqueles que avistaram de relance
a fraca e distante luz
e alçaram novos patamares
……………novos sonhos.

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Esconjuram entanto
o sem número de infortúnios e provações
a que são submetidos
todos os dias.

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O beijo da princesa mítica
lhes retirou do brejo e aliviou a cruz.
Mas ainda palmilham com a plebe.

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Lucífilos incorrigíveis
sentam-se na sala de estar
para receber seus grandes irmãos.

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Anestesiados
inalam com os olhos
os volúveis e voláteis
vapores de LCD.

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A escuridão lhes é indiferente.

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III

Não há beijos para todos
e a cruz pesa sobre os ombros.
Sobre os de uns mais que de outros.
Alguns carregam a de terceiros.

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Machuca os músculos.
Tritura os ossos.
Apaga o espírito.

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Torna-se habitual.

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Como as águas da chuva
que escorrem inertes na ladeira
seguem assim.

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Quando o crepúsculo se apresenta
regressam para casa
vencidos ou esmagados.

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Sentam-se aéreos
como robôs que recarregam a bateria
como moscas hipnotizadas pela luz.

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Contemplam um paraíso sem lastro.

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Justificada sua existência
se entorpecem homeopaticamente
até quando forem suficientes as doses
para tantas dores
que às vezes esquecem sentir.

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A possibilidade ínfima de encontrar a luz
é o que os separa da escuridão.

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IV

A escuridão é desconhecida.

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A escuridão é um mistério.

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Mistérios são armadilhas.

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V

Enquanto todos se entorpecem
Deus mais uma vez
envia seus quatro arautos
para restabelecer a ordem
na madrugada.

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O rubro cavaleiro da gratidão
sorrateiro e silencioso
se aproxima
batendo suas cinco asas amarelas
criando um turbilhão
e tomando de surpresa
aqueles que vagam ou definham
invisíveis nas ruas.

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Ainda tontos
mal sentem o golpe
das três lanças vermelhas
do negro cavaleiro da guerra
com seu ornitológico corpo
saído do mais alto lugar da Terra.

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Caídos no chão
os corpos aguardam a morte
sem agonia.

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Saído do barro escondido sob o asfalto
o cavaleiro com pés de pluma
e suas cinco merletas negras
alça aos céus
os despojos do ataque
sem deixar vestígios.

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Depositados os corpos
onde habitam todas as rapinas
o cavaleiro vermelho
dá o golpe derradeiro
naqueles que não deixarão saudade.

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VI

A escuridão persiste.

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Será preciso mais que essa madrugada
para dissipá-la.

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Mas Deus não desiste
(embora seja repetitivo)
e seus guerreiros são incansáveis.

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VII

O sol desponta.

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Com uma vaga lembrança
sobre o que ouviram falar
da divina ação na madrugada
zumbis e robôs
seguem
o roteiro transmitido na noite anterior
Felizes ou exaustos.

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A realidade é um show
e tem que continuar.

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