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Homo erectus

Vídeo

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Marcelino Freire

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Todas as vidas

Padrão

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Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…

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Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

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Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho.

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Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca grossa,
de chinelinha,
e filharada.

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Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto de terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.

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Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.

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Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.

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Cora Coralina

Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.
ed. 15. São Paulo: Global, 1988

 

Pequena defesa de tudo

Padrão

para Mara Menegazzo

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Decido com voz unânime pelo amor
A ignorância detesto!
Nostalgia imberbe todo o meu exército
E viverei o que queres
Ó amor?

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Não sepultarei como desejam os homens
Que outrora pernoitam
Afã de escuridão
Velando a beleza.

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Desde menino aprendi
A pronúncia e a simetria do desejo
Abasteço-me disso.
Esqueçam o que dizem os hipócritas
Estão enfermos e medram o chão involuntário do passo.

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O amor sobreviverá diuturnamente e sujo de folhas
Na defesa
Alisto-me intrépido!

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Charles Trocate

Marabá
Outubro de 2006

Fúria e delicadeza

Padrão

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Quando nem a sua irmanzinha mais nova
e o seu irmão mais velho
dão a mínima para o que você escreve /

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Quando nem seus amigos mais chegados,
a florista da esquina de baixo,
a velha louca que grita impropérios para seus fantasmas,
o padeiro que vive de olho na bunda da sua namorada
e a sua própria namorada
dão a mínima para o que você escreve /

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Quando todos os seus desafetos mais familiares
permanecem inescrutáveis na parte mais iluminada do bar,
com os cotovelos apoiados no balcão,
aguardando o momento em que você tropece
nas próprias pernas
e esborrache os joelhos no calçamento /

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é hora de continuar massacrando as teclas
em movimentos alternados de fúria e delicadeza. /

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Por precaução, não custa nada comprar um revolver /
e deixá-lo em cima do criado-mudo /
ao lado do maço de cigarros

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Ademir Assunção