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Homo erectus

Vídeo

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Marcelino Freire

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Todas as vidas

Padrão

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Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…

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Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

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Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho.

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Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca grossa,
de chinelinha,
e filharada.

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Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto de terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.

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Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.

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Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.

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Cora Coralina

Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.
ed. 15. São Paulo: Global, 1988

 

Romanceiro da Inconfidência

Padrão

ROMANCE XXIV ou

da Bandeira da Inconfidência

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Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro da das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.

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Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
Brilham fardas e casacas,
junto com batinas e casacas,
junto com batinas pretas.
E há finas mãos pensativas,
entre galões, sedas, rendas,
e há grossas mãos vigorosas,
de unhas fortes, duras veias,
e há mãos de púlpito e altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos.
Uns são reinóis, uns, mazombos;
e pensam de mil maneiras;
mas citam Vergílio e Horácio,
e refletem, e argumentam,
falam de minas e impostos,
de lavras e de fazendas,
de ministros e rainhas
e de colônias inglesas.

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Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

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Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio…”
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
“Tenho meus dedos cortados,
antes que tal verso escrevam…”
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes, inventores
já são réus – pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).

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Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
“Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias nas Gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?”
(Antiguidades de Nimes
em Vila Rica suspensas!
Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da Independência!
Liberdade — essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

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E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.

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Cecília Meireles

Fúria e delicadeza

Padrão

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Quando nem a sua irmanzinha mais nova
e o seu irmão mais velho
dão a mínima para o que você escreve /

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Quando nem seus amigos mais chegados,
a florista da esquina de baixo,
a velha louca que grita impropérios para seus fantasmas,
o padeiro que vive de olho na bunda da sua namorada
e a sua própria namorada
dão a mínima para o que você escreve /

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Quando todos os seus desafetos mais familiares
permanecem inescrutáveis na parte mais iluminada do bar,
com os cotovelos apoiados no balcão,
aguardando o momento em que você tropece
nas próprias pernas
e esborrache os joelhos no calçamento /

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é hora de continuar massacrando as teclas
em movimentos alternados de fúria e delicadeza. /

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Por precaução, não custa nada comprar um revolver /
e deixá-lo em cima do criado-mudo /
ao lado do maço de cigarros

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Ademir Assunção

Prenúncios de Aurora

Padrão

I

Aurora
eu te diviso
ainda tímida
inexperiente

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das luzes
que vais acender

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dos bens
que repartirás
com todos os homens

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– Prenunciou o poeta gauche
em seu sentimento do mundo

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Antes
muito antes
de nascer
Aurora.

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II

Quando telefonava
clandestina
para encontros
clandestinos
identificava-se

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Luíza Porto

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Lola era afável

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posto que estrábica
muito levemente estrábica
atirava bem
Muito bem

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até que um dia
não ligou nunca mais.

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Acabou a poesia.

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III

Há que
haver sobrado
alguma poesia

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Há que
haver
pelo menos
a certeza poética
emblemática
de que
a luta continua

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E há que
haver a aceitação
dessa certeza

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porque não posso
sozinho
dinamitar a ilha de Manhattan

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e construir uma nova

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Aurora

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IV

Garimpo solitário
a cada treva

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o universo
e suas leis
os céus
e suas dinâmicas
o ar
e seus fogos
a terra
e suas águas

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Depuro
elemento
por elemento

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Estou quase cego dessa mineração
Mas ainda posso saber
Mas ainda posso alcançar

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Só não acredito
em desígnios
de deuses

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Minha Aurora
tem um desenho humano
traçado por mestres
de obras

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Mas as palavras exatas
ainda fogem à minha bateia.

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V

Aurora
Maria

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Nascimento Furtado

.

– Lola

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VI

Que saudades
que tenho

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Da Aurora

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Da minha vida

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que Auroras
que Sol
que Vida
que nada.

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VII

Eles assassinaram Aurora

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Restou ao dia amanhecer
…………………..solitário
……………..em ruptura
…………………..radical

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Havemos de amanhecer

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O mundo se tingirá
E o sangue que escorre será doce
de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces
Aurora.

Alípio Freire
escritor e jornalista

Publicado em:
“Estação Paraíso”, Ed. Expressão Popular, 2007