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Corvidiano

Padrão

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I

A gralha loura
matraqueou na noite
mal agouros e maldições
de tempos imemoriais.

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Rosnou
com o bico a espumar
seu cacarejo intrépido.

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Então a lua cheia se fez nova
na noite sem estrelas da metrópole.

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II

O homem com dores nos joelhos
tomou banho de sal grosso
riscou três cruzes no chão
e preferiu ser surdo a ser cego

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Afinal, bons olhos são fundamentais
quando se está de estilingue em punho.

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A difícil tarefa

Padrão

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Há mortos
que demoram a morrer
ou ressuscitam
cotidianamente.

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Há mortos
que lançam nos olhos dos vivos
seus maxilares
suas memórias
e cicatrizes.

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Os vivos silenciam
impotentes e exilados
diante do milagre
e da incapacidade de enterrá-los
– principalmente quando são de outros.

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Cabe aos vivos, viver.

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