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Soberania

Padrão

para Lili e Amanda Proeti
Fátima e Maria Júlia,
Cristina Roseno e Anabela,
Ana e Lira,
Sheila e Natasha
e todas as mulheres em luta

 

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Nestes dias
como há milênios
é imprescindível afirmar
a humanidade
Do ser humano mulher.

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Reconhecer-lhes
o título de propriedade
de seu corpo
registrado alguns milhões de vezes
no cartório de seu cariótipo.

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Nestes dias pós-modernos
de áurea tão medieval
se faz necessário
Ressignificar a lei do ventre livre.

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Todas as vidas

Padrão

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Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…

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Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

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Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho.

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Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca grossa,
de chinelinha,
e filharada.

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Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto de terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.

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Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.

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Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.

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Cora Coralina

Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.
ed. 15. São Paulo: Global, 1988