Tag Archives: madrugada

Bodas de rubi

Padrão

ao companheiro Carlos Marighella
(in memoriam)

I

Era noite
quando o corpo tombou
em silêncio
na escuridão perfurada.

.

Sem aparente eco.

.

.

II

Os jornais
Os carcereiros
Os astrólogos

.

Noticiaram.

.

Manchetes duram apenas um dia
(exceção feita a hebdomadários e afins)

.

.

III

Ele desapareceu
sumiu
foi preso
alçou voo
morreu e ressuscitou
uma série de vezes

.

Até que tombou de fato
na alameda Casa Branca.

.

.

IV

O corpo tombou na  noite
Irreversível.

.

Afoitos
gorilas leviatãs e cordeiros
(todos de verde)
festejaram.

.

.

V

Incrédulos e estupefatos
seus companheiros
receberam a notícia.

.

Olhos furtivos
sem recuarem.

.

Como continuar cantando o amor
exaltando a vida
recitando lutas
tremulando poemas?

.

Miravam-se sem resposta.

.

.

VI

Decididamente
não tiveram tempo
de ter medo.

.

Era o que haviam aprendido.

.

Jonathan Constantino
São Paulo, 4 de novembro de 2009

Anúncios

Morte súbita

Padrão

.

A chuva caiu e penetrou
as rachaduras da terra
na madrugada inesperada.

.

Encharcada de suor
morreu Soledad
em meio a uma moita de lírios.

.

Gatos gemeram solenemente
vulcões explodiram
e estrelas cadentes arranharam os céus.


A flor no quintal

Padrão
dos diálogos com Alejandro Reyes
Belchior
Carlos Drummond

e Charles Trocate

Tinha uma flor
largada no quintal do mundo.

.

Não tinha nome força ou luz
para contrastar o tédio
ou despontar em ato primavera.

.

Sem permissão alguma
o sol na madrugada ardeu
e consumiu a flor
gemendo labaredas e abismo.

.

Quando a aurora brotou
restou ao dia chover em celebração.

Aurora

Padrão
dos diálogos com Carlos Drummond de Andrade
e com Alípio Freire

.

Havemos de amanhecer, camaradas
mesmo que a noite
de aparência interminável
Persista.

.

Embora lamacento e movediço
é este o caminho que temos.
Embora incertos e inseguros
nossos passos são o que temos de mais concreto.

.

Nossas vistas
já acostumadas com o breu
não reconhecem flores buracos mariposas.
Para evitar maiores quedas
é preciso tatear o caminho
……………..seus contornos
……………………..entornos
……………………..entraves.

.

Abatidos carregamos cicatrizes
hematomas e um coração ferido.

.

Em nossa pele as marcas
do muro que se desfez
do fuzil tirado de nossas mãos
(com o qual nos balearam)
das frustradas tentativas de trincheira
da estrela tão luminosa que se apagou.

.

A noite nos surpreendeu.

.

Mas não há por que desespero
ou confiança cega
− a manhã já mostra seus sinais.

.

Havemos de receber no rosto
os primeiros raios de sol a iluminar nossas faces
− havemos de enfrentar o dia
e o risco do entardecer.

.

Quando o crepúsculo se elevar no horizonte
não entremos em pânico
nem definhemos saudosos de alvoradas do passado.

.

No romper da nova noite
talvez já não creiamos em auroras.

.

Cada madrugada traz seus riscos
e a possibilidade de novas manhãs
− até que o universo anoiteça definitivamente.

.

Nesta madrugada de densa escuridão
não podemos resignar nossos passos
amputar o caminho já feito

.

É imprescindível seguir.

.

Jonathan Constantino
13 de dezembro de 2009