Tag Archives: liberdade

Diálogo silencioso

Padrão

.

para Amanda Iargas e Fernando Scaff

.

I

As imagens silenciaram
as palavras.

.

Os poemas não saem.
As notícias são incompletas.
Os relatórios inconclusivos.

.

As imagens sintetizam
(escondem?)
o que as palavras diriam?

.

A fotografia calou os olhos
e as mãos.

.

A imagem não contava

.

.

II

Palavras imagens e poeta
engasgaram-se
.

………COF!

…..COF!

..COF!

.

regurgitam
paus-de-arara chicotes cadeiras-do-dragão
donzelas-de-ferro garrotes torniquetes
arames alicates serras eletrodos
e um crucifixo

………COF!

…..COF!

..COF!

.

lacrimejam arrochos salariais
endividamentos públicos
sucateamento de escolas
concentrações fundiárias

.

..COF!

…..COF!

………COF!

.

.

III

Os olhos se desviaram das sombras
do rapaz de costas e mãos presas
fixaram-se na fita
……………………Vermelha

.

Desatam-se ossos
Sangram chagas abertas
Desmoronam corpos no mar
Retorcem-se músculos eletrocutados

.

O silêncio é um espectro de signos.

.

.

Anúncios

Gaiola

Padrão

dos diálogos com Ferreira Gullar

.

o mundo tem muitas armadilhas
………….tem muitas algemas
………….tem muitos grilhões

.

a vida é uma jaula

.

.

não
talvez a morte não seja
a conquista do céu

.

a vida  ainda é essa gaiola

..

.

mas a gente ainda canta
ensaia um bater de asas

.

.

Romanceiro da Inconfidência

Padrão

ROMANCE XXIV ou

da Bandeira da Inconfidência

.

Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro da das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.

.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
Brilham fardas e casacas,
junto com batinas e casacas,
junto com batinas pretas.
E há finas mãos pensativas,
entre galões, sedas, rendas,
e há grossas mãos vigorosas,
de unhas fortes, duras veias,
e há mãos de púlpito e altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos.
Uns são reinóis, uns, mazombos;
e pensam de mil maneiras;
mas citam Vergílio e Horácio,
e refletem, e argumentam,
falam de minas e impostos,
de lavras e de fazendas,
de ministros e rainhas
e de colônias inglesas.

.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio…”
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
“Tenho meus dedos cortados,
antes que tal verso escrevam…”
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes, inventores
já são réus – pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).

.

Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
“Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias nas Gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?”
(Antiguidades de Nimes
em Vila Rica suspensas!
Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da Independência!
Liberdade — essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

.

E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.

.

.

Cecília Meireles

Lucifilia

Padrão

.

dedicado a todas as vítimas
da ação da PM paulista
na região da estação da Luz
entre dezembro de 2011
e janeiro de 2012

.

I

Como homens lobotomizados
vagam na escuridão
envoltos em mantos esfarrapados
Sedentos.

.

Fustigados pela vida
mancam das pernas e do espírito
com a mão estendida
(pedindo clemência ou níquel)
ou armados de cacos de vidro
– camuflados na cinza paisagem da metrópole.

.

Atravessaram longas distâncias
em busca da estrela brilhante
que anunciaria a redenção
e a prosperidade
com seus vapores de alfazema e notas amadeiradas…

.

Fracassaram.

.

Noctâmbulos recorrem
a qualquer brilho fugaz
ou pedra preciosa
na desesperada (e inútil)
tentativa de inalar tais anseios.

.

Tal astro de brilho indecifrável
é uma lanterna no fim de um túnel
Estreitíssimo.

.

.Hoje fedem.

.

.

II

Nem todos os zumbis
vagam na noite.

.

Há aqueles que avistaram de relance
a fraca e distante luz
e alçaram novos patamares
……………novos sonhos.

.

Esconjuram entanto
o sem número de infortúnios e provações
a que são submetidos
todos os dias.

.

O beijo da princesa mítica
lhes retirou do brejo e aliviou a cruz.
Mas ainda palmilham com a plebe.

.

Lucífilos incorrigíveis
sentam-se na sala de estar
para receber seus grandes irmãos.

.

Anestesiados
inalam com os olhos
os volúveis e voláteis
vapores de LCD.

.

A escuridão lhes é indiferente.

.

.

III

Não há beijos para todos
e a cruz pesa sobre os ombros.
Sobre os de uns mais que de outros.
Alguns carregam a de terceiros.

.

Machuca os músculos.
Tritura os ossos.
Apaga o espírito.

.

Torna-se habitual.

.

Como as águas da chuva
que escorrem inertes na ladeira
seguem assim.

.

Quando o crepúsculo se apresenta
regressam para casa
vencidos ou esmagados.

.

Sentam-se aéreos
como robôs que recarregam a bateria
como moscas hipnotizadas pela luz.

.

Contemplam um paraíso sem lastro.

.

Justificada sua existência
se entorpecem homeopaticamente
até quando forem suficientes as doses
para tantas dores
que às vezes esquecem sentir.

.

A possibilidade ínfima de encontrar a luz
é o que os separa da escuridão.

.

.

IV

A escuridão é desconhecida.

.

A escuridão é um mistério.

.

Mistérios são armadilhas.

.

.

V

Enquanto todos se entorpecem
Deus mais uma vez
envia seus quatro arautos
para restabelecer a ordem
na madrugada.

.

O rubro cavaleiro da gratidão
sorrateiro e silencioso
se aproxima
batendo suas cinco asas amarelas
criando um turbilhão
e tomando de surpresa
aqueles que vagam ou definham
invisíveis nas ruas.

.

Ainda tontos
mal sentem o golpe
das três lanças vermelhas
do negro cavaleiro da guerra
com seu ornitológico corpo
saído do mais alto lugar da Terra.

.

Caídos no chão
os corpos aguardam a morte
sem agonia.

.

Saído do barro escondido sob o asfalto
o cavaleiro com pés de pluma
e suas cinco merletas negras
alça aos céus
os despojos do ataque
sem deixar vestígios.

.

Depositados os corpos
onde habitam todas as rapinas
o cavaleiro vermelho
dá o golpe derradeiro
naqueles que não deixarão saudade.

.

.

VI

A escuridão persiste.

.

Será preciso mais que essa madrugada
para dissipá-la.

.

Mas Deus não desiste
(embora seja repetitivo)
e seus guerreiros são incansáveis.

.

.

VII

O sol desponta.

.

Com uma vaga lembrança
sobre o que ouviram falar
da divina ação na madrugada
zumbis e robôs
seguem
o roteiro transmitido na noite anterior
Felizes ou exaustos.

.

A realidade é um show
e tem que continuar.

.

.