Tag Archives: bandeira

Choro de tolo

Padrão

dos apoiadores do Golpe 1
ou

dos diálogos entre Raul Seixas e os Mutantes

pessoas na sala de jantar
na inércia de nascer e morrer
ocupadas com sua touch screen
e os dribles ao imposto de renda

.

pessoas sentadas na poltrona
de um apartamento com varanda gourmet
admirando boquiabertas
a imensa bandeira nacional
hasteada no pátio dum grande atacado

.

pessoas de cujo cume de seu olho
a ingênua e casta lágrima desce
refletindo o brilho auriverde
de seus corretos sentimentos e ações

.

eu que nunca fui santo
vejo maior verossimilhança
na escassa possibilidade
de sobre o topo do edifício itália
se assentar a sombra sonora de um disco voador

.

.

Romanceiro da Inconfidência

Padrão

ROMANCE XXIV ou

da Bandeira da Inconfidência

.

Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro da das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.

.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
Brilham fardas e casacas,
junto com batinas e casacas,
junto com batinas pretas.
E há finas mãos pensativas,
entre galões, sedas, rendas,
e há grossas mãos vigorosas,
de unhas fortes, duras veias,
e há mãos de púlpito e altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos.
Uns são reinóis, uns, mazombos;
e pensam de mil maneiras;
mas citam Vergílio e Horácio,
e refletem, e argumentam,
falam de minas e impostos,
de lavras e de fazendas,
de ministros e rainhas
e de colônias inglesas.

.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio…”
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
“Tenho meus dedos cortados,
antes que tal verso escrevam…”
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes, inventores
já são réus – pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).

.

Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
“Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias nas Gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?”
(Antiguidades de Nimes
em Vila Rica suspensas!
Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da Independência!
Liberdade — essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

.

E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.

.

.

Cecília Meireles

Aurora

Padrão
dos diálogos com Carlos Drummond de Andrade
e com Alípio Freire

.

Havemos de amanhecer, camaradas
mesmo que a noite
de aparência interminável
Persista.

.

Embora lamacento e movediço
é este o caminho que temos.
Embora incertos e inseguros
nossos passos são o que temos de mais concreto.

.

Nossas vistas
já acostumadas com o breu
não reconhecem flores buracos mariposas.
Para evitar maiores quedas
é preciso tatear o caminho
……………..seus contornos
……………………..entornos
……………………..entraves.

.

Abatidos carregamos cicatrizes
hematomas e um coração ferido.

.

Em nossa pele as marcas
do muro que se desfez
do fuzil tirado de nossas mãos
(com o qual nos balearam)
das frustradas tentativas de trincheira
da estrela tão luminosa que se apagou.

.

A noite nos surpreendeu.

.

Mas não há por que desespero
ou confiança cega
− a manhã já mostra seus sinais.

.

Havemos de receber no rosto
os primeiros raios de sol a iluminar nossas faces
− havemos de enfrentar o dia
e o risco do entardecer.

.

Quando o crepúsculo se elevar no horizonte
não entremos em pânico
nem definhemos saudosos de alvoradas do passado.

.

No romper da nova noite
talvez já não creiamos em auroras.

.

Cada madrugada traz seus riscos
e a possibilidade de novas manhãs
− até que o universo anoiteça definitivamente.

.

Nesta madrugada de densa escuridão
não podemos resignar nossos passos
amputar o caminho já feito

.

É imprescindível seguir.

.

Jonathan Constantino
13 de dezembro de 2009