Tag Archives: amigos

Notícias de agosto

Padrão

.

dos diálogos com C.D.A.

.

em memória de José Rezende

.

Carlos
as pedras e a flor desbotada
permanecem no caminho.

.

Os acontecimentos
as fadigas
a fotografia na parede
a ilha de Manhattan
perduram quase irreversíveis.

.

Ainda tropeçamos
em cacos de vidro de leite
e maxilares.

.

Até Fulana permaneceu.

.

Mas José
(e logo ele)
foi-se embora.

.

.

Cúmplices

Padrão

.

para Elaine Santos

 .

 Um gosto estranho
(escada de boteco)
embrenhou-se na boca
― selva de hálitos e gozos.

.

A língua pavimentava o silêncio.

.

Tratados, panfletos e ensaios
Bulas de comportamento adequado
Livros de autoajuda

.

Tornaram-se nódoas.

.

Os olhos, os peitos, os braços
discursaram melhor.
Sem bibelôs ou pigarro.

.

.

Lapidado

Padrão

.

em memória do amigo Jubileu

.

dos diálogos com Renato Russo,
Carlos Drummond de Andrade

.

.

I

Soa estranha
a melodia do adeus.

.

Dissonante e apressada
a morte se adianta
aos nossos anseios
tão humanos quanto ela.

.

Anjos sem asas
arco-íris monocromáticos
paredes caiadas
(onde outrora aerosóis inscreveram
hieróglifos urbanos)
Arquitetam a difícil paisagem.

.

O metrô vazio
às seis da tarde
nos permite digerir
a notícia.

.

.

II

Desacorçoados
maquinamos possibilidades
Aléns
Post-scripta.

.

Nossos projetos estão desacostumados
à ideia
inevitável e palpável
de um ponto final.

.

.

III

Soa estranha
a melodia do adeus
que embala certas tardes
de maio
ou novembro

.

em que nossos vivos se vão
jovens ou cedo demais.

.

.

IV

Os mortos permanecem vivos
nas marcas
deixadas no caminho
ou tatuadas em nós.

.

A vida nos cobra prosseguir
com nossas bagagens e cicatrizes
empunhando nossas bandeiras
carregando o maxilar de nossos antepassados.

.

.

.