Category Archives: Sobr’escrever

Fúria e delicadeza

Padrão

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Quando nem a sua irmanzinha mais nova
e o seu irmão mais velho
dão a mínima para o que você escreve /

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Quando nem seus amigos mais chegados,
a florista da esquina de baixo,
a velha louca que grita impropérios para seus fantasmas,
o padeiro que vive de olho na bunda da sua namorada
e a sua própria namorada
dão a mínima para o que você escreve /

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Quando todos os seus desafetos mais familiares
permanecem inescrutáveis na parte mais iluminada do bar,
com os cotovelos apoiados no balcão,
aguardando o momento em que você tropece
nas próprias pernas
e esborrache os joelhos no calçamento /

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é hora de continuar massacrando as teclas
em movimentos alternados de fúria e delicadeza. /

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Por precaução, não custa nada comprar um revolver /
e deixá-lo em cima do criado-mudo /
ao lado do maço de cigarros

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Ademir Assunção

Éculo 1

Padrão

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com os olhos abertos
sem óculos
o cara que vendia pão
e fazia versos
olha a paisagem distorci
…………………………..da
…………………………..de

..

enxerga bem a noite
……………….as luzes
……………….o céu nublado

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……………….as juras de amor
……………….os fogos de artifício

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……………….os mísseis as balas os corpos
…………………………………………os copos

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……………….e com um pouco de dificuldade
……………….o que está por trás
……………………………..as traças
……………………………..as traições

……………….– coisas paras quais seus óculos são inúteis

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Arpillar

Padrão

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É difícil compor um poema
com este mosaico a pairar nos pensamentos
destilado entre suores sangue e secreções.

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Imagens anseios e lembranças se sobrepõem
convulsamente entre a vigília e a insônia
como outdoores em uma cidade.

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A razão alinhava retalhos
tão isolados disformes e embaralhados
quanto meu povo e seu afã.

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