Porque é preciso dialogar sobre a vida

“Há que
haver sobrado
alguma poesia.

Há que
haver
pelo menos
a certeza poética
emblemática
de que
a luta continua.”

Alípio Freire
(trecho de “Prenúncios de Aurora”)


A proposta deste espaço se iniciou há exato um ano quando tentei construir o blog Metamorfose e Versos, que acabou não perdurando. Postei ali apenas quatro poemas curtos que tentavam primeiramente apresentar a proposta do blog, mas a iniciativa foi por água abaixo. O tempo, que não perdoa, fez questão de passar rápido e me deixar preso às prioridades daquele período. A ideia foi deixada no plasma.

Durante esse tempo comecei a me debruçar sobre a construção de meu primeiro livro. Este tempo, que tem sido de constante reflexão sobre o fazer poético e a importância da literatura como ferramenta dos trabalhadores e trabalhadoras, contou com a colaboração de pessoas especiais como Alípio Freire (autor da epígrafe) e de Vanessa Ramos. Também um número considerável de amigos e amigas que partilham comigo angústias parecidas com relação ao mundo, à sociedade, ao futuro e comungam o mesmo desejo ardente de transformação. Foi assim que muitas ideias foram se construindo e cresceu uma imensa vontade de dialogar com as pessoas, com o mundo, com a minha classe.

Há necessidade iminente de abrir esse diálogo. É imperativo denunciar as mazelas que fazem um sexto da população mundial viver na miséria, que extrai dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo a sua força de trabalho e não lhes devolve a riqueza que geram, que faz as mulheres sofrerem das mais diversas formas de violência. Mazelas que atingem indígenas, negros, os sem-terra, as crianças, os jovens. Mazelas causadas pelo Capital e seus tentáculos de poder, seja através da burguesia (industrial, agrária, financeira), do Estado e suas instituições, da Igreja (em seus mais diversos matizes).

Contudo, não se pode cair no ledo engano de alojar apenas nos lábios toda esta discussão e desdobramentos. Faz-se necessário construir espaços de resistência, de aprofundamento do debate e produção literária e artística de modo geral, teórica, política, científica. É imprescindível construir instrumentos de luta e, mais que construí-los, esforçar-se no trabalho unitário desses instrumentos a fim de fortalecê-los. Estes versos e outras publicações são uma tentativa nesse sentido. Este espaço, a busca de diálogo e interação. E, no intuito de estimular esse diálogo, abaixo está o e-mail para contato. Seja para críticas, sugestões, colaborações…

Ainda, é preciso que tenhamos nítidas quais são as relações e contradições fundamentais deste sistema, a fim de podermos suprimi-lo. Na bateia deste debate, porém, entram todas as esferas da existência que nos constroem enquanto seres humanos (homem e mulher) – questões de gênero, étnicas, a sexualidade, a amizade e aquilo que envolve os amantes – importantíssimas de serem discutidas para avançarmos no rumo em que nos propomos.

Diferente do que o discurso hegemônico prega, a tarefa de transformar o mundo e suplantar o capitalismo e demais relações sociais que permitem aos seres humanos oprimirem outros seres humanos não acabou. Embora tenhamos tido perdas, cometido erros e visto muros e perspectivas desabarem, a luta não acabou. O capitalismo, com seu autoritarismo e premissas individualistas, não pode apresentar aos seres humanos uma solução feliz para o seu presente e seu futuro.

É por isso que se apresentam aqui ensaios, tentativas de diálogo. Para que os poemas sejam armas que saibamos manejar, no calor desse exercício. Para que a poesia seja uma ferramenta presente em nossas ações na perseguição desse objetivo revolucionário, alimentando a certeza emblemática de que a luta continua. Pois, como diria uma amiga minha, se é difícil transformar o mundo, me é impossível a conformação com as desigualdades que se apresentam todos os dias diante dos meus olhos (mesmo sem sair de casa, às vezes).

Jonathan Constantino
São Paulo, 09 de agosto de 2010

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Nascido em Mogi das Cruzes (SP), em setembro de 1986, Jonathan Constantino rascunhou seus primeiros versos em 1999. Perdidos todos nas gavetas e no tempo, desde 2000 mantem o esforço de registrar seus poemas, entre rascunhos (uma pilha, depois uma caixa) e projetos.

Formado em Biologia, atualmente é professor da rede pública municipal de São Paulo (SP). Trabalhou na rede pública estadual e, por três anos, no Instituto Técnico de Formação, Pesquisa e Extensão em Agroecologia Laudenor de Souza, em Itaberá (SP). Além da licenciatura, já atuou como educador popular do CDHEP, no Capão Redondo, na zona sul da capital paulistana, e na assistência social de Suzano (SP), cidade onde viveu quase toda sua vida.

Ainda, contribuiu com reportagens, artigos, resenhas, poemas e contos para o Jornal Brasil de Fato e revistas Mundo & Missão, Missões e Le Monde Diplomatique Brasil.

Está preparando sua primeira publicação.

Contato: versosnalinhadotempo@gmail.com

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10 responses »

  1. Que texto maravilhoso, Jonathan !
    Como vc mesmo descreveu, ‘há necessidade iminente de abrir esse diálogo.’
    Espero ansiosamente o lançamento do seu livro .

    com carinho e saudade,
    Gêisa S.

  2. Querido Jonathan, lindas palavras de abertura, estamos esperando com ansiedade o seu livro de poesias, declaro que sempre utilizarei de suas poesias e sempre acessarei seu blog, um grande abraço e muita força e coragem para continuar nesta luta.

    • Oi João!

      Muito obrigado por sua visita, pelas palavras. Fique a vontade para utilizar os poemas que achar bons ou ruins, estão aí pra gente poetar um pouco o mundo mesmo.

      Forte abraço,

      J.

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