Argentina – Francisco “Paco” Urondo

A VERDADE É A ÚNICA REALIDADE

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Do outro lado da grade está a realidade, deste
lado da grade também está
a realidade; a única irreal
é a grade; a liberdade é real ainda que não se saiba bem
se pertence ao mundo dos vivos, ao
mundo dos mortos, ao mundo das
fantasias ou ao mundo da vigília, ao da exploração ou
da produção.

Os sonhos, sonhos são; as recordações, aquele
corpo, esse copo de vinho, o amor e
as fraquezas do amor, certamente, formam
parte da realidade; um disparo
na noite, na frente destes irmãos, destes filhos, aqueles
gritos irreais de dor real dos torturados no
“angelus” eterno e sinistro numa brigada de polícia
qualquer
são parte da memória, não supõe necessariamente
o presente, mas pertencem à realidade. A única aparente
é a grade quadriculando o céu, o canto
perdido de um preso, ladrão ou combatente, a voz
fuzilada, ressuscitada ao terceiro dia num vôo imenso
cobrindo a Patagônia
porque os massacres, as redenções, pertencem à realidade, como
a esperança resgatada da pólvora, da inocência
estival: são a realidade, como a coragem e a convalescença
do medo, esse ar que resiste a voltar depois do perigo
como os desígnios de todo um povo que marcha
até a vitória
ou até a morte, que tropeça, que aprende a defender-se,
a resgatar o seu, a sua
realidade.
Ainda que pareça às vezes uma mentira, a única
mentira não é sequer a traição, é
simplesmente uma grade que não pertence à realidade.

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BAR “LA CALESITA”

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É o fundo de um bar. É um lugar parecido a uma
cova onde um se senta, bebe e vê passar
os homens tomados por distintos problemas. É uma
grande lanterna mágica.

É uma gruta retirada do mundo que abriga a suas
criaturas. É possível se sentir ferozmente feliz ali.

Acaba de aparecer o primeiro homem, mal
aprendeu a caminhar, ainda não sabe se defender.

O homem sorri e chora e segue a festa.

Tradução: Jefferson Vasques
Dispónível em: https://bityli.com/cPqKm

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PREFIRO SEGUIR VIVIENDO

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 Se vocês permitem,
prefiro seguir vivendo.
Apesar de tudo e pensando bem, não tenho
motivos para me queixar ou protestar.
Sempre vivi na glória; nada
de importante me faltou.
É certo que nunca almejei impossíveis; enamorado
das coisas desse mundo com inconsciência e dor
e medo e urgência.

Conheci bem de perto a imperdoável alegria; tive
sonhos espantosos e bons amores, ligeiros e culpáveis.
Sinto vergonha de me ver coberto de pretensões:
uma galinha desajeitada,
melancólica, débil, pouco interessante.
Um abano de plumas que o vento despreza,
caminho que o tempo apagou,
Os impulsos morderam a minha juventude e agora
sem me dar conta, vou iniciando
uma madurez equilibrada, capaz de enlouquecer
qualquer um
ou aborrecer de golpe.
Meus erros foram esquecidos definitivamente; minha
memória morreu e se queixa
com outros deuses varados no sonho e nos maus
sentimentos.
O perecedeiro, o sujo, o futuro, soube me acovardar.
mas eu o derrotei
para sempre; sei que futuro e memória se vingarão
algum dia.
passarei desapercebido, com falsa humildade,
como a Cinderela, ainda que alguns
se lembrem de mim com carinho e achem meu
sapatinho
e também acabem morrendo.
Não descarto a possibilidade
da fama e do dinheiro; das baixas paixões e da
inclemência.
A crueldade não me assusta e sempre vivi deslumbrado
pelo puro trago, o livro bem escrito, a carne perfeita.
Costumo confiar minhas forças e na minha saúde,
no meu destino e na boa sorte:
seu que chegarei a ver revoluções, o salto temido
e acariciado, golpeando a porta de nossa inteligência.
Estou seguro que chegar a viver no coração de uma
palavra;
compartir este calor, esta fatalidade que quieta
não serve e se corrompe.
Posso falar e escutar a luz
e a cor da pele amada e inimiga e próxima.
Tocar o sonho e a impureza,
nascer como cada tremor gasto na fuga.
Tropeços feridos de morte:
Esperança e dor e cansaço e ganas.
Estar falando, sustentar
esta vitória, este punho; saudar e me despedir.
Sem jactâncias posso dizer
que a vida é a melhor coisa que eu conheço.

(De Del outro lado, 1968)

Tradução: Thiago de Mello
Disponível em: https://bityli.com/GXrZQ

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Dá-me tua mão

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Quando arder o amor,
não estarei a teu lado,
estarei distante.

Será por covardia,
por não sofrer,
por não reconhecer que não soube
transformar tudo isto.

Arderá o amor,
arderá sua memória
até que tudo seja como sonhamos
como, na verdade, poderia ter sido.

Porém já estarei distante.
Será tarde para arrependimentos
e ninguém poderá contudo assustar-se
do que ele tem.

Antes de qualquer coisa, antes
de suspeitar,
vivamos isto, que mais não seja, e que
por aí é exagerado.

Viver, sim
que ninguém admita; abrir fogo
até que o amor, resmungando, arda
como se entrasse no futuro.

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Tradução livre: Jonathan Constantino
Poema original disponível em: https://bityli.com/PqFzK

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