Monthly Archives: Agosto 2013

Ilhas

Padrão

dos diálogos com o Salmo 23,
Castro Alves,
Chico Buarque e Ruy Guerra,
Fernando Pessoa
e O Rappa

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em solidariedade
aos médicos cubanos

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I
os médicontinentais
são uma ilha
de sacerdócio
…..ostensório
…..estetoscópio

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no cume de seu abismo

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II
legião de homens brancos
de jaleco branco
vagando

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pelos prados e campinas verdejantes

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III
há gente no alto
do morro na beira
do rio no fundo
da cidade na margem
do mundo

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legião de homens negros como a noite

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IV
há gente que morre
vinte e quatro horas por dia
no apogeu do século 21
com doenças do século 16

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herdeiros do lirismo e da sífilis

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V
de meu continente
e meu condomínio ( fechado )
de meu monitor de cristal líquido
vejo tudo que preciso saber da terra e do universo

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e sou do tamanho do que vejo

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VI
a ilha é uma porção de rocha
emergente no mar
rodeada de água
e de águias

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navegar é preciso

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VII
o continente é um mar de terra
e há gente no alto
e há gente que morre

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mar de gente

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no qual mergulham
sem receio
os médicos da ilha

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Todas as vidas

Padrão

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Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…

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Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

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Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho.

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Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca grossa,
de chinelinha,
e filharada.

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Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto de terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.

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Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.

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Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.

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Cora Coralina

Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.
ed. 15. São Paulo: Global, 1988

 

Romanceiro da Inconfidência

Padrão

ROMANCE XXIV ou

da Bandeira da Inconfidência

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Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro da das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.

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Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
Brilham fardas e casacas,
junto com batinas e casacas,
junto com batinas pretas.
E há finas mãos pensativas,
entre galões, sedas, rendas,
e há grossas mãos vigorosas,
de unhas fortes, duras veias,
e há mãos de púlpito e altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos.
Uns são reinóis, uns, mazombos;
e pensam de mil maneiras;
mas citam Vergílio e Horácio,
e refletem, e argumentam,
falam de minas e impostos,
de lavras e de fazendas,
de ministros e rainhas
e de colônias inglesas.

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Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

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Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio…”
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
“Tenho meus dedos cortados,
antes que tal verso escrevam…”
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes, inventores
já são réus – pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).

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Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
“Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias nas Gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?”
(Antiguidades de Nimes
em Vila Rica suspensas!
Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da Independência!
Liberdade — essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

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E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.

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Cecília Meireles

Andarilho

Padrão

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num lampejo de momento
descobri que há
……………….no mundo
……………….ao menos
116 lugares para se conhecer

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portos  e rincões
para além de minha cidade natal
……………de minha cidade-paixão
……………de minha primeira cidade de deslumbramentos

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numa faísca
num átimo
me veio a ideia de ter
…………………………em mãos
apenas mochila caderneta  caneta
…………………………e pernas

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e a necessidade
terrível e indelével
de desbravar cada célula do seu corpo
……………………………………………..(cidade-abismo)
……………….cada molécula do seu gozo
……………….cada instante do seu amor
…………..em cada uma
……………….(uma a uma a uma)
……………….delas

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