Monthly Archives: Abril 2013

Da crise

Padrão

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1

a lua nasce
sobra a luta
de classes

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ignoram
estrelas
o escuro
que fazem

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galáxias
inteiras
giram
à parte

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prossegue
o universo
apesar
dos pesares

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2

com olhos
no céu
e pés
na cidade

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entre
as fases
dos astros
e do capital

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num ínfimo
ponto
entre a história
e a eternidade

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aguardo
um ônibus
um cometa
um sinal

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Jefferson Vasques

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Ao meu partido

Padrão

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Me deste a fraternidade para o que não conheço.

Me acrescentaste a força de todos os que vivem.

Me tornaste a dar a pátria como em um nascimento.

Me deste a liberdade que não tem o solitário.

Me ensinaste a acender a bondade, como o fogo.

Me deste a retidão que necessita a árvore.

Me ensinaste a ver a unidade e a diferença dos homens.

Me mostraste como a dor de um ser morreu na vitória de todos.

Me ensinaste a dormir nas camas duras de meus irmãos.

Me fizeste construir sobre a realidade como sobre uma rocha.

Me fizeste adversário do malvado e muro do frenético.

Me fizeste ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.

Me fizeste indestrutível porque contigo não termino em mim mesmo.

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Pablo Neruda

Canto 28, do capítulo 15, “Yo soy”, de Canto Geral,
publicado em 1950, após 11 anos de trabalho.
Tradução de Paulo Mendes Campos.

Especulações pirotécnicas

Padrão

para Hugo Fanton

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se Elias foi arrebatado
aos céus
numa carruagem de fogo

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se o espírito santo desceu
à terra
como línguas incendiárias

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Não sei.

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Mas entre o natal de um ano
e a primavera do seguinte
a comunidade do Moinho
duas vezes se viu tomada pelas chamas.

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No fundo
tudo são especulações.

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24 de setembro de 2012

Paisagens, páginas e plataformas

Padrão

para Alessandra e Anelisa
Diego, Evelyn e Ivone
Letícia, Manoel e Mercedes
Ricardo e Sheila
Tatiana e Vânia

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dos diálogos com
Fernando Pessoa
Gonzaguinha
Milton Nascimento
Carlos Drummond de Andrade

I

A janela do trem revela a paisagem
mas esconde (de propósito?)
trezentos e cinquenta e sete passos
a serem dados sob o sol.

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Se ele olha através do vidro
é que se faz necessário ver
além dos bancos e companheiros de viagem
das propagandas e painéis de informação.

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Que o mundo, meu bem
é um descabido de árvores
de trilhos e trilhas
de flores de prédios
de soluços risos e prantos
Principalmente de britas.

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Elas sempre se encaixam
tranquilas e despudoradas
em seus sapatos enormes
— os caminhos ali não cabem.

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II

Cansado de folhear a paisagem
(efêmera como um poema não anotado)
admira as páginas de um livro qualquer
companheiro de sua solidão e sortilégios.

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A paisagem e as páginas estão lá
como há alguns anos
Imóveis e invisíveis
se não há olhos que lhes devorem

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Devorar é preciso, viver não é.

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Ao menos se não for para devorar a vida
lambuzando as mãos os lábios o rosto

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Lambuzar-se é viver.

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Besuntado de paisagens e páginas
na ladeira incabível da vida
carrega sua carcaça que goza e luta.

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III

A paisagem rápida feito felino
corre diante dos olhos imóveis
e não conta todos os seus segredos
oferece esparsas e variadas fotografias
e só.

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Mas atrás daquela moita de hibiscos sabe
vive um homem entrevadamente miserável
sem os cento e setenta e um documentos pessoais
que provam que um certo humano é uma pessoa.

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Os muros em que sinscreve a poesia urbana
— uma palavra de ordem e protesto
ou simplesmente que o trem é um coração de mãe
ocultam tijolos forjados por mãos infantis
ou por varas ósseas e carcomidas
(pelo tempo a escravidão a cachaça)
Semi-dedos de gente.

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Enxerga entre as britas
gramíneas e mirtáceas
que se hasteiam aos céus
determinadas (frágeis?).

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Sabe
muitos olhos que viu em sua frente
já não esperançavam a mínima fresta.

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— Seria a fé o que nos move?
….Fé na vida no homem no que virá?
….Na terra firme?
….No além mar?

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….Fé fezes e férias?

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IV

Suas narinas ainda sentem
odores inconvenientes
como o rastro daquele sujeito roto
e sem rota.

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O café fresco da manhã
o cangote macio de sua mulher
o aroma de manga ou de ponkan
aquele perfume vagabundo do camelô
não o fazem esquecer.

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A paisagem tem cheiros impalatáveis
com suaves notas de iniquidades e impropérios.

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V

Ninguém lhe mandou notícias
do que ocorria na província
terra traçada pela cruz e o café
mas ele sabia que o mundo é desigual
e combinado
— velho tabuleiro de xadrez.

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Nada a temer senão o correr da luta.
Nada a fazer senão enfrentar o medo.

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VI

Quando as portas se abrem
é necessário decidir
…………………………..ficar? partir?
antes de tocarem o sinal.

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Tantas estações
incontáveis plataformas

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vai vem vai vem vai
na estação
chegam e partem os trens
as pessoas na gare

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O sujeito gauche vê tudo
de soslaio
e se interroga.

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