Urucungo – Raul Bopp

Padrão

ÁFRICA

A floresta era um útero.

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Quando a noite chegou
As árvores incharam.

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Aratabá-becúm

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O homem amedrontado espiava no escuro
A selva carregada de vozes ia crescendo no sangue.
Quando vieram as estrelas
o carvão-animal filtrou a luz das estrelas.

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DONA CHICA

A negra serviu o café.

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– A sua escrava tem uns dentes bonitos dona Chica.
– Ah o senhor acha?

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Ao sair
a negra demorou-se com um sorriso na porta da varanda.

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Foi cantando uma cantiga casa-a-dentro.

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Ai do céu caiu um galho
Bateu no chão. Desfolhou.

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Dona Chica não disse nada.
Acendeu ódios no olhar.

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Foi lá dentro. Pegou a negra.
Mandou metê-la no tronco.
– Iaiá Chica não me mate!
– Ah! Desta vez tu me pagas.

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Meteu um trapo na boca.
Depois
quebrou os dentes dela com um martelo.

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– Agora
junte esses cacos numa salva de prata
e leve assim mesmo,
babando sangue,
pr’aquele moço que está na sala, peste!

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MÃE-PRETA

– Mãe-preta, me conta uma história.
– Então feche os olhos filhinho:

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Longe muito longe
era uma vez o rio Congo…

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Por toda parte o mato grande.
Muito sol batia o chão.

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De noite
chegavam os elefantes.
Então o barulho do mato crescia.

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Quando o rio ficava brabo
inchava.

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Brigava com as árvores.
Carregava  com tudo, águas abaixo,
até chegar na boca do mar.

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Depois…

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Olhos da preta pararam.
Acordaram-se as vozes do sangue,
glu-glus de água engasgada
naquele dia do nunca-mais.

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Era uma praia vazia
com riscos brancos de areia
e batelões carregando escravos.

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Começou então
uma noite muito comprida.
Era uma mar que não acava mais.

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… depois…

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– Ué mãezinha,
por que você não conta o resto da história?

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NEGRO

Pesa em teu sangue a voz de ignoradas origens.
As florestas guardaram na sombra o segredo da tua história.

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A sua primeira inscrição em baixo-relevo
foi uma chicotada no lombo.

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Um dia
atiraram-te no bojo de um navio negreiro.
E durante longas noites e noites
vieste escutando o rugido do mar
como um soluço no porão soturno.

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O mar era um irmão da tua raça.

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Uma madrugada
baixaram as velas do convés.
Havia uma nesga de terra e um porto.
Armazéns com depósitos de escravos
e a queixa dos teus irmãos amarrados em coleiras de ferro.

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Principiou aí a sua história.

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O resto,
o que ficou para trás,
o Congo, as florestas e o mar
continuam a doer na corda do urucungo.

 

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Os quatro poemas acima foram escritos por Raul Bopp, poeta brasileiro que participou do grupo da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo (SP). Nascido em Santa Maria (RS), em 4 de agosto de 1898, trabalhou como jornalista e diplomata, viajou por todo o Brasil e se manteve próximo de figuras importantes de nossa literatura. De sua produção poética, Cobra Norato é talvez a mais conhecida. Os poemas selecionados para este post foram extraídos do livro Urucungo – poemas negros, de 1932, um livro com textos belíssimos que buscam retratar a história dos negros no Brasil desde de seu sequestro da África até os primeiros anos após a abolição da escravatura. Raul Bopp falesceu em 2 de junho de 1984.

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About j.constantino

Nascido em Mogi das Cruzes (SP), em setembro de 1986, Jonathan Constantino rascunhou seus primeiros versos em 1999. Perdidos todos nas gavetas e no tempo, desde 2000 mantem o esforço de registrar seus poemas, entre rascunhos (uma pilha, depois uma caixa) e projetos. Formado em Biologia, atualmente é professor da rede pública municipal de São Paulo (SP). Trabalhou na rede pública estadual e, por três anos, no Instituto Técnico de Formação, Pesquisa e Extensão em Agroecologia Laudenor de Souza, em Itaberá (SP). Além da licenciatura, já atuou como educador popular do CDHEP, na zona sul da capital paulistana, e na assistência social de Suzano, cidade onde viveu quase toda sua vida. Ainda, contribuiu com reportagens, artigos, resenhas, poemas e contos para o Jornal Brasil de Fato e revistas Mundo & Missão, Missões e Le Monde Diplomatique Brasil. Está preparando sua primeira publicação.

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