Monthly Archives: Novembro 2012

Urucungo – Raul Bopp

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ÁFRICA

A floresta era um útero.

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Quando a noite chegou
As árvores incharam.

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Aratabá-becúm

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O homem amedrontado espiava no escuro
A selva carregada de vozes ia crescendo no sangue.
Quando vieram as estrelas
o carvão-animal filtrou a luz das estrelas.

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DONA CHICA

A negra serviu o café.

.

– A sua escrava tem uns dentes bonitos dona Chica.
– Ah o senhor acha?

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Ao sair
a negra demorou-se com um sorriso na porta da varanda.

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Foi cantando uma cantiga casa-a-dentro.

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Ai do céu caiu um galho
Bateu no chão. Desfolhou.

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Dona Chica não disse nada.
Acendeu ódios no olhar.

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Foi lá dentro. Pegou a negra.
Mandou metê-la no tronco.
– Iaiá Chica não me mate!
– Ah! Desta vez tu me pagas.

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Meteu um trapo na boca.
Depois
quebrou os dentes dela com um martelo.

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– Agora
junte esses cacos numa salva de prata
e leve assim mesmo,
babando sangue,
pr’aquele moço que está na sala, peste!

.

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MÃE-PRETA

– Mãe-preta, me conta uma história.
– Então feche os olhos filhinho:

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Longe muito longe
era uma vez o rio Congo…

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Por toda parte o mato grande.
Muito sol batia o chão.

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De noite
chegavam os elefantes.
Então o barulho do mato crescia.

.

Quando o rio ficava brabo
inchava.

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Brigava com as árvores.
Carregava  com tudo, águas abaixo,
até chegar na boca do mar.

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Depois…

.

Olhos da preta pararam.
Acordaram-se as vozes do sangue,
glu-glus de água engasgada
naquele dia do nunca-mais.

.

Era uma praia vazia
com riscos brancos de areia
e batelões carregando escravos.

.

Começou então
uma noite muito comprida.
Era uma mar que não acava mais.

.

… depois…

.

– Ué mãezinha,
por que você não conta o resto da história?

.

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NEGRO

Pesa em teu sangue a voz de ignoradas origens.
As florestas guardaram na sombra o segredo da tua história.

.

A sua primeira inscrição em baixo-relevo
foi uma chicotada no lombo.

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Um dia
atiraram-te no bojo de um navio negreiro.
E durante longas noites e noites
vieste escutando o rugido do mar
como um soluço no porão soturno.

.

O mar era um irmão da tua raça.

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Uma madrugada
baixaram as velas do convés.
Havia uma nesga de terra e um porto.
Armazéns com depósitos de escravos
e a queixa dos teus irmãos amarrados em coleiras de ferro.

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Principiou aí a sua história.

.

O resto,
o que ficou para trás,
o Congo, as florestas e o mar
continuam a doer na corda do urucungo.

 

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Os quatro poemas acima foram escritos por Raul Bopp, poeta brasileiro que participou do grupo da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo (SP). Nascido em Santa Maria (RS), em 4 de agosto de 1898, trabalhou como jornalista e diplomata, viajou por todo o Brasil e se manteve próximo de figuras importantes de nossa literatura. De sua produção poética, Cobra Norato é talvez a mais conhecida. Os poemas selecionados para este post foram extraídos do livro Urucungo – poemas negros, de 1932, um livro com textos belíssimos que buscam retratar a história dos negros no Brasil desde de seu sequestro da África até os primeiros anos após a abolição da escravatura. Raul Bopp falesceu em 2 de junho de 1984.

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Prenúncios de Aurora

Padrão

I

Aurora
eu te diviso
ainda tímida
inexperiente

.

das luzes
que vais acender

.

dos bens
que repartirás
com todos os homens

.

– Prenunciou o poeta gauche
em seu sentimento do mundo

.

Antes
muito antes
de nascer
Aurora.

.

.

II

Quando telefonava
clandestina
para encontros
clandestinos
identificava-se

.

Luíza Porto

.

Lola era afável

.

posto que estrábica
muito levemente estrábica
atirava bem
Muito bem

.

até que um dia
não ligou nunca mais.

.

Acabou a poesia.

.

.

III

Há que
haver sobrado
alguma poesia

.

Há que
haver
pelo menos
a certeza poética
emblemática
de que
a luta continua

.

E há que
haver a aceitação
dessa certeza

.

porque não posso
sozinho
dinamitar a ilha de Manhattan

.

e construir uma nova

.

Aurora

.

.

IV

Garimpo solitário
a cada treva

.

o universo
e suas leis
os céus
e suas dinâmicas
o ar
e seus fogos
a terra
e suas águas

.

Depuro
elemento
por elemento

.

Estou quase cego dessa mineração
Mas ainda posso saber
Mas ainda posso alcançar

.

Só não acredito
em desígnios
de deuses

.

Minha Aurora
tem um desenho humano
traçado por mestres
de obras

.

Mas as palavras exatas
ainda fogem à minha bateia.

.

.

V

Aurora
Maria

.

Nascimento Furtado

.

– Lola

.

.

VI

Que saudades
que tenho

.

Da Aurora

.

Da minha vida

.

que Auroras
que Sol
que Vida
que nada.

.

.

VII

Eles assassinaram Aurora

.

Restou ao dia amanhecer
…………………..solitário
……………..em ruptura
…………………..radical

.

Havemos de amanhecer

.

O mundo se tingirá
E o sangue que escorre será doce
de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces
Aurora.

Alípio Freire
escritor e jornalista

Publicado em:
“Estação Paraíso”, Ed. Expressão Popular, 2007