Quebra-coluna

Padrão

.

I

Quando chegou ao Brasil
sequestrado da África
foi vendido num mercado
…………………………perto do porto
…………………………longe da praia

.

Muito longe da praia.

.

.

II

Ao serem comprados no mercado
os negros escravizados
levavam uma surra
de moer a carne.

.

Apanhavam (pedagogicamente)
para não mais
mirarem os olhos de seu dono

.

Para se esquecerem do horizonte.

.

.

III

Como mandava
o manual de boas práticas
se os escravos fizessem algo errado
recebiam um reforço negativo
para aprenderem o que é certo.

.

Os dislexos, porém, morriam.

.

.

IV

Nos momentos em que o horizonte
ascenou sua lembrança
como sinal de esperança
endemoniamento ou surto psicótico
muitos fugiram em busca de liberdade
……………………………..de descanso
……………………………..de casa
……………………………..de um sonho fugaz.

.

Nesses casos
acionaram-se os capitães-do-mato
com suas armas cavalos giroflex viaturas
para capturar revistar surrar
fazer o necessário
e colocá-los em seu lugar.

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About j.constantino

Nascido em Mogi das Cruzes (SP), em setembro de 1986, Jonathan Constantino rascunhou seus primeiros versos em 1999. Perdidos todos nas gavetas e no tempo, desde 2000 mantem o esforço de registrar seus poemas, entre rascunhos (uma pilha, depois uma caixa) e projetos. Formado em Biologia, atualmente é professor da rede pública municipal de São Paulo (SP). Trabalhou na rede pública estadual e, por três anos, no Instituto Técnico de Formação, Pesquisa e Extensão em Agroecologia Laudenor de Souza, em Itaberá (SP). Além da licenciatura, já atuou como educador popular do CDHEP, na zona sul da capital paulistana, e na assistência social de Suzano, cidade onde viveu quase toda sua vida. Ainda, contribuiu com reportagens, artigos, resenhas, poemas e contos para o Jornal Brasil de Fato e revistas Mundo & Missão, Missões e Le Monde Diplomatique Brasil. Está preparando sua primeira publicação.

4 responses »

  1. Trata-se de uma poesia crua e nua sobre quem carregou nas mãos e nas costas o Brasil como colônia de Portugal. Poesia mais que realista, é uma denúncia clara ao nos afirmar que nossa história tem que ser escrita, reescrita sob o olhar de quem a viveu e sofreu na pele e na alma. Que vivam os negros(negras) para também recontarem sua história verídica. Que viva Franz Fannon.

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