José Paulo Paes

Padrão

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MADRIGAL

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Meu amor é simples, Dora,
como a água e o pão.

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Como o céu refletido
nas pupilas de um cão.

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CANÇÃO SENSATA

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Dora, que importa
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
Se livres seguimos
O rastro dos faunos,
A voz das sereias?

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Dora, que importa
A herança do avô
Sob a pedra, nua,
Se do ar colhemos
Moedas de sol,
Guirlandas de lua?

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Dora, que importa
Esse frágil muro
Que defende os cautos,
Se além do pequeno
Há horizontes loucos,
De que somos arautos?

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De maior beleza
É, pois, nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta.
Dora, isso importa.

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PEQUENO RETRATO

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Nunca vislumbrei
No momento exíguo,
No dia contigo,
O dia contíguo.

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Sempre desprezei
A estrela sinistra,
O falso zodíaco,
A esfera de cristal
E o terceiro aviso
Do galo matinal.

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Como submeter
O desejo ao fado,
Se todo prazer
Ri da cautela,
Ri do cuidado,
Que o quer prender?

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Vou despreocupado,
Dora, tão despreocupado,
Que nem sei morrer.

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EPIGRAMA

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Entre sonho e lucidez, as incertezas.
Entre delírio e dever, as tempestades.
Ai, para sempre serei teu prisioneiro
Neste patíbulo amargo de saudades…

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José Paulo Paes

Os poemas acima foram escritos pelo poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta José Paulo Paes, nascido em Taquaratinga (SP), em 1926. É um dos grandes poetas brasileiros, embora sua obra seja pouco conhecida, principalmente entre os mais jovens.

Os poemas apresentados são parte do livro Cúmplices, de 1951. Os recolhi do exemplar que tenho de Os melhores poemas, selecionado por Davi Arrigucci Jr. Como salienta Arrigucci em sua apresentação do livro, não são a obra-prima deste poeta singular. Porém um poema como Madrigal é “uma equação amorosa nascida das coisas mais simples [e] se expande em reflexos no universo inteiro, unindo o pequeno e o grande, a partir da declaração de amor à musa sempiterna, Dora”.

Vale a pena conferir a obra de José Paulo Paes. Para não me alongar muito, encerro com as precisas palavras de Arrigucci:

Pode-se ler a poesia de José Paulo Paes, breve e aguda a cada lance
em sua tendência constante ao epigrama, como se formasse um só
cancioneiro da vida toda de um homem que respondeu com poemas
aos apelos do mundo e de sua existência interior.”

Davi Arrigucci Jr, em “Os melhores Poemas de José Paulo Paes”
Global Editora, 3ª ed., 2000

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About j.constantino

Nascido em Mogi das Cruzes (SP), em setembro de 1986, Jonathan Constantino rascunhou seus primeiros versos em 1999. Perdidos todos nas gavetas e no tempo, desde 2000 mantem o esforço de registrar seus poemas, entre rascunhos (uma pilha, depois uma caixa) e projetos. Formado em Biologia, atualmente é professor da rede pública municipal de São Paulo (SP). Trabalhou na rede pública estadual e, por três anos, no Instituto Técnico de Formação, Pesquisa e Extensão em Agroecologia Laudenor de Souza, em Itaberá (SP). Além da licenciatura, já atuou como educador popular do CDHEP, na zona sul da capital paulistana, e na assistência social de Suzano, cidade onde viveu quase toda sua vida. Ainda, contribuiu com reportagens, artigos, resenhas, poemas e contos para o Jornal Brasil de Fato e revistas Mundo & Missão, Missões e Le Monde Diplomatique Brasil. Está preparando sua primeira publicação.

5 responses »

  1. Ainda de José Paulo Paes:

    AUTO-EPITÁFIO Nº 2

    para quem pediu sempre tão pouco
    o nada é positivamente um exagero

    (In Socráticas – publicação póstuma)

    Putabraço,
    Alipio Freire

  2. POEMA

    Atrás das cabeças fechadas dos tortos

    Eu fico procurando uma luz reta que ás vezes encontro.

    E eles nem sabem quando eu, poeta, os deixo nú

    Diante dos outros.

    Os pobres cabeças fechadas, os pobres cabeças cegas

    Que diante da seta dos meus versos deixam cair as máscaras.

    Sérvio Tílio de Mascarenhas Lima

    ( VIVA A JOSÉ PAULO PAES )

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