Bodas de rubi

Padrão

ao companheiro Carlos Marighella
(in memoriam)

I

Era noite
quando o corpo tombou
em silêncio
na escuridão perfurada.

.

Sem aparente eco.

.

.

II

Os jornais
Os carcereiros
Os astrólogos

.

Noticiaram.

.

Manchetes duram apenas um dia
(exceção feita a hebdomadários e afins)

.

.

III

Ele desapareceu
sumiu
foi preso
alçou voo
morreu e ressuscitou
uma série de vezes

.

Até que tombou de fato
na alameda Casa Branca.

.

.

IV

O corpo tombou na  noite
Irreversível.

.

Afoitos
gorilas leviatãs e cordeiros
(todos de verde)
festejaram.

.

.

V

Incrédulos e estupefatos
seus companheiros
receberam a notícia.

.

Olhos furtivos
sem recuarem.

.

Como continuar cantando o amor
exaltando a vida
recitando lutas
tremulando poemas?

.

Miravam-se sem resposta.

.

.

VI

Decididamente
não tiveram tempo
de ter medo.

.

Era o que haviam aprendido.

.

Jonathan Constantino
São Paulo, 4 de novembro de 2009

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About j.constantino

Nascido em Mogi das Cruzes (SP), em setembro de 1986, Jonathan Constantino rascunhou seus primeiros versos em 1999. Perdidos todos nas gavetas e no tempo, desde 2000 mantem o esforço de registrar seus poemas, entre rascunhos (uma pilha, depois uma caixa) e projetos. Formado em Biologia, atualmente é professor da rede pública municipal de São Paulo (SP). Trabalhou na rede pública estadual e, por três anos, no Instituto Técnico de Formação, Pesquisa e Extensão em Agroecologia Laudenor de Souza, em Itaberá (SP). Além da licenciatura, já atuou como educador popular do CDHEP, na zona sul da capital paulistana, e na assistência social de Suzano, cidade onde viveu quase toda sua vida. Ainda, contribuiu com reportagens, artigos, resenhas, poemas e contos para o Jornal Brasil de Fato e revistas Mundo & Missão, Missões e Le Monde Diplomatique Brasil. Está preparando sua primeira publicação.

5 responses »

  1. Uma tia querida, que há pouco tempo faleceu sempre dizia que a memória, a tristeza e todos os sentimentos que nos vêm quando morre um querido, vão desaparecendo conforme a carne apodrece. Muito forte isso.
    Mas é bom saber que ela, dessa vez, não estava repleta de razão. As artes, os versos, poesia, conhecimento podem fazer com que não sejam esquecidos aqueles que de uma forma ou outra colaboraram para que sejamos como somos em nossas ideologias, princípios, lutas e razões. Parabens.

  2. Salve Diego,

    Pois é, neste caso ela não estava tão certa.

    Bem, naquela tarefa de resistir às grades mesmo que detrás delas, é importante manter viva a memória de todos/as os/as que resistiram da mesma forma. São memórias de pessoas tão humanas quanto nós que ajudam a disputar espaço nesse mundo em que impera o discurso da desesperança e do medo.

    • Oi Catheryne,
      Que bom saber que gostou do poema. Se achar oportuno pode utilizá-lo sim, dando os créditos. O grande objetivo do que faço e deste blog é compartilhar as produções mesmo. Depois, gostaria de ver seu trabalho.
      Forte abraço e visite mais vezes o blog,
      Jonathan

  3. O que ainda me dá forças para continuar seguindo em frente são compas como você, pois entre tantos
    que se deixaram corromper pelo sistema, e até passaram a fazer parte dele, para com isso tentar nos
    calar, outras tantas vozes DIZEM NÃO e vão à luta!

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