Aurora

Padrão
dos diálogos com Carlos Drummond de Andrade
e com Alípio Freire

.

Havemos de amanhecer, camaradas
mesmo que a noite
de aparência interminável
Persista.

.

Embora lamacento e movediço
é este o caminho que temos.
Embora incertos e inseguros
nossos passos são o que temos de mais concreto.

.

Nossas vistas
já acostumadas com o breu
não reconhecem flores buracos mariposas.
Para evitar maiores quedas
é preciso tatear o caminho
……………..seus contornos
……………………..entornos
……………………..entraves.

.

Abatidos carregamos cicatrizes
hematomas e um coração ferido.

.

Em nossa pele as marcas
do muro que se desfez
do fuzil tirado de nossas mãos
(com o qual nos balearam)
das frustradas tentativas de trincheira
da estrela tão luminosa que se apagou.

.

A noite nos surpreendeu.

.

Mas não há por que desespero
ou confiança cega
− a manhã já mostra seus sinais.

.

Havemos de receber no rosto
os primeiros raios de sol a iluminar nossas faces
− havemos de enfrentar o dia
e o risco do entardecer.

.

Quando o crepúsculo se elevar no horizonte
não entremos em pânico
nem definhemos saudosos de alvoradas do passado.

.

No romper da nova noite
talvez já não creiamos em auroras.

.

Cada madrugada traz seus riscos
e a possibilidade de novas manhãs
− até que o universo anoiteça definitivamente.

.

Nesta madrugada de densa escuridão
não podemos resignar nossos passos
amputar o caminho já feito

.

É imprescindível seguir.

.

Jonathan Constantino
13 de dezembro de 2009

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About j.constantino

Nascido em Mogi das Cruzes (SP), em setembro de 1986, Jonathan Constantino rascunhou seus primeiros versos em 1999. Perdidos todos nas gavetas e no tempo, desde 2000 mantem o esforço de registrar seus poemas, entre rascunhos (uma pilha, depois uma caixa) e projetos. Formado em Biologia, atualmente é professor da rede pública municipal de São Paulo (SP). Trabalhou na rede pública estadual e, por três anos, no Instituto Técnico de Formação, Pesquisa e Extensão em Agroecologia Laudenor de Souza, em Itaberá (SP). Além da licenciatura, já atuou como educador popular do CDHEP, na zona sul da capital paulistana, e na assistência social de Suzano, cidade onde viveu quase toda sua vida. Ainda, contribuiu com reportagens, artigos, resenhas, poemas e contos para o Jornal Brasil de Fato e revistas Mundo & Missão, Missões e Le Monde Diplomatique Brasil. Está preparando sua primeira publicação.

7 responses »

  1. Nossas vistas
    já acostumadas com o breu
    não reconhecem mariposas flores buracos.
    Para evitar maiores quedas
    é preciso tatear o caminho
    …………………..seus contornos
    …………………………..entornos
    …………………………..entraves.

    Amo você!

  2. Jo, poema lindo!

    Reflete muito nossa vida militante. Não poderia ter dito em melhores palavras.

    Continue compartilhando suas criações…
    Um beijo!

  3. Em casa breu, nosso coração recebe uma camada de uma espécie de verniz e vamos nos endurecendo com o tempo. Porém é preciso acreditar no hoje e continuar… senão só nos resta viver uma vida vazia e sem graça. Esta poesia calhou pra um dia de sol como hj!bjusss

  4. Pode parecer loucura minha, mas as vezes acho tão desnecessária essa preocupação pelo amanhecer, entardecer, anoitecer. É inevitável que se chegue esse momento pra quem fica. Nos preocupamos com o certo e nos esquecemos do que realmente interessa, o caminho. Quando o crepúsculo der seus primeiros sinais, serão sinais de existência e não de vida e então talvez nos arrependamos do caminho trilhado. É inevitável que se chegue, sofrer, sofrer tanto, é opcional.

    Você dialogou com drummnond, mas o que veio em meus pensamentos mesmo, foi Bandeira.

    • Pois é, meu querido amigo. Flagelar-se de sofrimento é uma opção. E uma opção que não muda o que já se trilhou. E o caminho é o que se fez e quando a aurora (ou o crepúsculo) vier (e se vier), que venha com aquilo que tiver em sua bagagem:

      “Procurem por toda à parte
      Pura ou degradada até a última baixeza
      Eu quero a estrela da manhã.” (M. Bandeira)

      Um abraço enorme

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