Monthly Archives: Agosto 2010

Aurora

Padrão
dos diálogos com Carlos Drummond de Andrade
e com Alípio Freire

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Havemos de amanhecer, camaradas
mesmo que a noite
de aparência interminável
Persista.

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Embora lamacento e movediço
é este o caminho que temos.
Embora incertos e inseguros
nossos passos são o que temos de mais concreto.

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Nossas vistas
já acostumadas com o breu
não reconhecem flores buracos mariposas.
Para evitar maiores quedas
é preciso tatear o caminho
……………..seus contornos
……………………..entornos
……………………..entraves.

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Abatidos carregamos cicatrizes
hematomas e um coração ferido.

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Em nossa pele as marcas
do muro que se desfez
do fuzil tirado de nossas mãos
(com o qual nos balearam)
das frustradas tentativas de trincheira
da estrela tão luminosa que se apagou.

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A noite nos surpreendeu.

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Mas não há por que desespero
ou confiança cega
− a manhã já mostra seus sinais.

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Havemos de receber no rosto
os primeiros raios de sol a iluminar nossas faces
− havemos de enfrentar o dia
e o risco do entardecer.

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Quando o crepúsculo se elevar no horizonte
não entremos em pânico
nem definhemos saudosos de alvoradas do passado.

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No romper da nova noite
talvez já não creiamos em auroras.

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Cada madrugada traz seus riscos
e a possibilidade de novas manhãs
− até que o universo anoiteça definitivamente.

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Nesta madrugada de densa escuridão
não podemos resignar nossos passos
amputar o caminho já feito

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É imprescindível seguir.

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Jonathan Constantino
13 de dezembro de 2009

Deglutição urbana

Padrão

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Com dificuldade o ônibus cruza a cidade.

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O ônibus demora a encostar
na plataforma
depois de riscar caminhos imensos.

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A aglomeração recrudesce
……………………….cresce
……………………….cresce
……………………..CRESCE

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A plataforma incha.

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Já estacionado
em seu devido lugar
as suas portas abertas mastigam
multidão de mercadorias em marcha.

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Jonathan Constantino

A ser dito

Padrão


Há algo a ser dito
pelos jornais, em suas páginas
pela rádio, em suas ondas
nas imagens da TV
nos sites e sítios virtuais.

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Há algo a ser dito
nos palanques e nas praças
nos púlpitos e prostíbulos
– a fim de incitar
…………..excitar

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…………..os feitos
…………..as forças do povo.

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Para pinicar sofás
explodir camas
movimentar os alicerces dos templos
……………………………dos castelos
……………………………dos bancos

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Há algo a ser dito
sempre
há algo a ser dito

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e que não é.

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Jonathan Constantino
São Paulo, 26 de maio de 2009

este poema foi dedicado à minha amiga Bárbara Vidal

Na luta*

Padrão

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A luta não é um ringue de campões
trincheira  de salvadores da pátria
sepultura de heróis
É uma opção

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de classe
De vida.

 

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Exige
amores, bandeiras, sangue
teorias e…

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…uma boa dose de humor.

 

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Cantigas de amor e amigo
cantigas de roda
Monstros, medos e lendas
gênios, tabus e mitos
deuses, heróis e dogmas
– todos postos à prova.

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Na luta se faz a irreversível experiência do abismo.

 

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Controlar jacarés pela boca
saltar de aviões sem paraquedas
engolir adagas e bolas de fogo
– apenas clichês hollywoodianos.

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Na luta é preciso mais que coragem.

 

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Nossos inimigos são ninjas mercenários à luz do dia
cães que não ladram.

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Na luta qualquer intriga pessoal é pífia.

 

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As calçadas têm qualquer coisa de dor
Ladrilham agonias em nossos olhos
que se habituam à dureza da visão.

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É imperativo denunciar o sofrimento.

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Mas nossa causa não pode ficar apenas nos lábios.

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Na luta há de se tomar
poemas, discursos e armas
com a mesma convicção.

Jonathan Constantino

*da coletânea
“Revelações do abismo”
no prelo

Perseguição*

Padrão

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A sua face e o seu verso
perseguem-me por toda parte.


Percebo você nas paredes pintadas de preto
e de branco
nas portas dos presídios, dos palácios, dos prostíbulos
e do meu apartamento
nas praças, nos parques, nas pedras
e nos presépios
nas pegadas e marcas que deixei no asfalto
e nos paralelepípedos.


Penetra meus pensamentos e meus poros
pulsa em meus pulsos, na minha pupila
polui e povoa a minha visão de tudo
– sendo belo ou não.


Punge daquilo que sou e que fui
elementos e pedaços soltos
E se traduz numa terceira coisa
que já não mais me pertence.

Jonathan Constantino

*da coletânea
“Revelações do abismo”
no prelo